quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Mitologia Hindu - Sarasvati
Sarasvati é considerada a Deusa do Conhecimento e das Artes na Índia, daí que nas suas mãos Ela ostenta um livro (representando o Veda) e uma rudra veena (para além de um cordão chamado mAlA), sendo que é Ela quem conduz ao Conhecimento (de si-mesmo) e inspira os artistas.
A Seus pés encontra-se um lótus (outro símbolo do Conhecimento), e, normalmente, Ela encontra-se rodeada de cisnes (hamsa em Sânscrito) que simbolizam o poder discriminativo entre o real e o não-real (sat e asat), eterno e o perecível (nitya anitya vastu viveka) e o ser e o não-ser (atman e anatman), pois é dito que o cisne é o único ser capaz de extrair apenas o leite numa mistura de água e leite – tal é o seu poder de discriminação.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Mudrás
![]() | Dhyana-mudra O gesto da meditação; mão direita sobre a esquerda, com as pontas dos polegares se tocando. Associado à meditação do buddha Shakyamuni sob a figueira de bodhi. Também é o gesto do dhyani-buddha Amitabha. |
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![]() | Bhumi-sparsha-mudra O gesto de tocar a terra; as pontas dos dedos da mão direita tocam o chão. Associado à firmeza inabalável do buddha Shakyamuni que, logo após atingir a iluminação, invocou a terra como testemunha de sua iluminação. Também é o gesto do dhyani-buddha Akshobhya. Vipashyin, o primeiro buddha, que atingiu a iluminação sob uma árvore patali, é representado fazendo este gesto com as duas mãos. |
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![]() | Abhaya-mudra O gesto da proteção ou destemor; a mão direita fica erguida e com os dedos levantados. Associado à benevolência do buddha Shakyamuni, que domou um elefante selvagem com este gesto. Também é o gesto do dhyani-buddha Amoghasiddhi. |
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![]() | Varada-mudra O gesto da misericórdia ou realização dos desejos; a mão fica direita voltada para frente com os dedos abaixados. Associado à generosidade e compaixão do buddha Shakyamuni e ao dhyani-buddha Ratnasambhava. Krakuchandra, o quarto buddha, que atingiu a iluminação sob uma árvore sirisa, é representado fazendo este gesto com a mão direita e segundo uma ponta de seu manto com a mão esquerda. |
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![]() | Vitarka-mudra O gesto da explicação; as pontas dos dedos polegar e indicador da mão direita ficam se tocando. Em uma variante, a mão direita faz o Abhaya-mudra e a mão faz o Varada-mudra. Associado às explicações do buddha Shakyamuni e ao dhyani-buddha Vairochana. Shikin, o segundo buddha, que atingiu a iluminação sob um lótus branco, aparece fazendo este gesto com a mão direita; com a esquerda no colo, ele toca os dedos polegar e médio. Kanakamuni, o quinto buddha, que atingiu a ilumonação sob uma árvore udumbara, é representado fazendo este gesto com a mão direta; sua mão esquerda repousa sobre o colo, fazendo o avakasha-mudra, o gesto do ócio. |
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![]() | Dharma-chakra-mudra O gesto da roda do Dharma; ambas as mãos fazendo o gesto anterior. Este gesto é associado ao ensinamento de buddha Shakyamuni, ao futuro buddha Maitreya e, às vezes, é utilizado em representações do dhyani-buddha Vairochana. Este gesto também é usado para representar o terceiro buddha, Vishvabhu, que atingiu a iluminação sob uma árvore sala. |
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![]() | Buddha-shramana-mudra O gesto da renúncia de Buddha, da eliminação do apego. Semelhante ao abhaya-mudra, mas a mão direita fica sobre o joelho ao invés de erguida. Kashyapa, o sexto buddha, que atingiu a iluminação sobre uma árvore banyan, é representado fazendo este gesto. |
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![]() | Tarjani-mudra O gesto da eliminação de negatividades. |
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![]() | Buthadamara-mudra O gesto da proteção. |
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![]() | Namaskara-mudra O gesto da oração. |
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Pratyahara
Pratyahara
Pratyahara é a quinta parte do Ashtanga Yoga. Quando o discípulo passou por todas as partes anteriores ele está apto a praticar a abstração dos sentidos externos. Embora seja uma prática interesante, poucos discípulos chegavam até ela. O motivo disto é obvio. Foram necessários pelo menos 48 anos de discipulado para chegar até este ponto. Se levarmos em consideração que na época de Patañjali a expectativa de vida era em torno de 30 anos, fica fácil entender que poucas pessoas chegavam neste nível de treinamento.
Se uma pessoa decidisse aprender Ashtanga Yoga com 15 anos, acrescentemos o tempo de treinamento, 48 anos, e teremos nada menos que 63 anos. Muito além das expectativas de vida do homem comum.
Por volta do ano de 1200 d.C. Marco Polo, numa de suas viagens ao oriente em busca de especiarias, relata ter conhecido um grupo de homens quem viviam até 150 anos e que eram chamados de Yogi.
Como eram poucos os discípulos que chegavam até os estágios finais do Ashtanga Yoga, uma versão mais moderna preferiu excluir alguns aspectos. Criada no século XV o HathaYoga fez muito sucesso.
domingo, 6 de dezembro de 2009
Samádhi
Samádhi
Samádhi é o objetivo do Yoga. Samádhi é a última parte do Ashtanga Yoga. De acordo com a filosofica especulativa na qual se baseia o raciocínio de quem interpreta, Samádhi pode significar tanto "iluminação espiritual" (Vedanta), como "hiperconsciência" (Sámkhya).
Particularmente eu prefiro o segundo significado, uma vez que conforme diz o Dicionário Aurélio, "Yoga é a parte prática da filosofia Sámkhya."
O dicionarista está correto pois o Yoga Sútra, que é a primeira sistematização do Yoga, foi escrito levando-se em consideração o Sámkhya.
Enfim, Samádhi pode significar: êxtase, ênstase, hiperconciência, iluminação espiritual, entre outros. Escolha a sua interpretação e beneficie-se desta filosofia que tem como efeitos colaterais a saúde, o bem-estar, a paz, a alegria e a satisfação.
sábado, 5 de dezembro de 2009
Dhyaná
Dhyaná
Dhyaná é a sétima parte do Ashtanga Yoga. Nas primeiras transliterações ela significou meditação. Entretanto, meditar significa "submeter a um exame interior; pensar em"(Dic.Aurélio).
Os exercícios e textos relativos ao desenvolvimento do Dhyaná nos sugerem a parada das ondas cerebrais. No texto do Yoga Sútra( III-2), "Dhyaná consiste em manter a continuidade da atenção sobre um objeto(seja ele grosseiro ou sutil)".
Talvez a melhor transliteração para este termo, hoje, seja intuição linear.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Dháraná
Dháraná
Dháraná é a sexta parte do Ashtanga Yoga. Dháraná significa concentração.
A mente humana gosta de mudar de objetos constantemente. Esta atitude era muito importante quando estávamos nos momentos iniciais da nossa evolução e tinhamos que estar atentos ao ambiente para a qualquer mudança que houvesse decidir entre fugir ou lutar.
Com a crecente complexidade dos problemas nos é exigido uma capacidade de atenção mais forte. Assim sendo, precisamos aumentar a nossa capacidade de atenção voluntária: a concentração. Devemos desenvolver a concentração (Dháraná) com o intuito de desenvolver a intuição linear (Dhyana) e assim alcançar o Samádhi.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Yoganidra
YOGANIDRA
Yoga Nidra é um método sistemático para induzir um relaxamento completo nos níveis físico, mental e emocional. O termo Yoga Nidra é derivado de duas palavras sânscritas, Yoga que significa união ou atenção focalizada e Nidra que significa sono. Durante a prática de Yoga Nidra, a pessoa parece estar adormecida, mas a consciência continua ativa funcionando num nível muito profundo de atenção.
Neste estado fronteiriço entre vigília e o sono, o contato com os níveis subconsciente e inconsciente ocorre espontaneamente.
A técnica de Yoga Nidra foi criada por Swami Satyananda Saraswati a partir das escrituras tântricas, de uma prática em especial, chamada Nyasa, cuja principal característica consiste na sistemática rotação de consciência pelo corpo inteiro.
Em Yoga Nidra, o estado de relaxamento é alcanlçado através da introspecção profunda, de forma que, isolando a consciência das experiências externas e do sono, ela pode tornar-se um poderoso instrumento a ser utilizado de diferentes e para desenvolver a memória, incrementar o conhecimento, a criatividade, etc. E o mais importante de tudo, Yoga Nidra pode proporcionar profundas mudanças de personalidade tais como cura de compulsões, vícios, neuroses, constituindo-se num instrumento de fundamental importância a ser usado em Yogaterapia.
Fonte: Tânia Maria Sales -http://www.flordelotus.pro.br
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Yoganidra - O Relaxamento Abençoado
Yoganidra
O Relaxamento Abençoado
Swami Satyananda Saraswati
A maioria dorme sem resolver suas tensões,
O que é chamado sono (NIDRA).
Nidra significa sono, não importa o que ou porquê,
Mas Yoga Nidra Significa dormir após libertar-se de todos os fardos da mente.
Por isso é um sono abençoado de qualidade superior.
Quando a consciência é separada das vrttis (ondas mentais),
Quando a vigília, o sonho e o sono profundo passam como nuvens,
Ainda assim a consciência de Atma permanece
Esta é a experiência de relaxamento total.
Relaxamento não significa sono.
Relaxamento significa sentimento de bem-aventurança,
E não tem fim.
Eu chamo de benção o relaxamento absoluto;
Sono é outra coisa.
Sono proporciona apenas a relaxação da mente e dos sentidos.
O toque da Graça relaxa o Atma, o Ser interior;
É por isso, que no Tantra,
Yoga Nidra é considerado o portal de entrada para Samadhi.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Tantra - Algumas Definições
O tantra propõe incorporar todas as ações, todos os pensamentos, todas as emoções, no caminho. Nada em si é puro ou impuro, bom ou ruim, mundano ou transcendente; as coisas só aparecem para nós destes modos por causa das idéias pré-concebidas. No sistema do tantra, qualquer ação — até mesmo andar, comer, defecar ou dormir — pode ser incorporada ao caminho espiritual.
(John Powers, Introduction to Tibetan Buddhism)
De acordo com a tradição, os tantras foram abertos pela primeira vez para o rei Indrabodhi [de Uddiyana]. Um dia, o rei estava na sacada de seu palácio quando avistou o Buddha voando com o seu séqüito de arhats. O rei Indrabodhi perguntou a seu ministro quem eram esses extraordinários seres e se aceitariam um convite para almoçar em seu palácio. O rei então ofereceu uma bela refeição ao Buddha, que por sua vez lhe deu um ensinamento sobre a renúncia aos apegos mundanos. O rei ouviu com atenção, mas ao final perguntou se o Buddha poderia oferecer um ensinamento que não requeresse a renúncia aos seus deveres de soberano, seus prazeres ou sua riqueza. "Sou um rei", disse ele, "e centenas de milhares de súditos dependem de mim. Não posso abandonar minhas responsabilidades." O Buddha, em sua onisciência, reconheceu que o rei Indrabodhi tinha karma para praticar o Vajrayana e, algum tempo mais tarde, abriu a mandala de Guhyasamaja para ele, aparecendo no céu como a deidade e séqüito e concedendo iniciação e ensinamentos. O rei praticou tão bem que tanto ele quanto seus súditos atingiram a iluminação.
(Chagdud Khadro, Práticas Preliminares do Budismo Vajrayana)
[O] verdadeiro significado da palavra [tantra] é "continuidade", no sentido de que apesar de todos os fenômenos serem vazios, ainda assim eles continuam a se manifestar. Todos os métodos tântricos trabalham com esta continuação, tomando a vacuidade de todos os fenômenos — com a qual os os sutra trabalham — como sua premissa básica.
(Chögyal Namkhai Norbu, The Crystal and the Way of Light)
Enquanto o ensinamento básico do buddhismo Mahayana refere-se ao desenvolvimento da sabedoria, o conhecimento transcendente, os ensinamentos básicos do tantra estão ligados ao trabalho com a energia. A energia é descrita no Vajramala Kriyayoga Tantra como "aquilo que habita no coração de todos os seres, a simplicidade que existe por si mesma, o que mantém a sabedoria. Essa essência indestrutível é a energia da grande alegria e permeia tudo, como o espaço. Este é o corpo dhármico da não-fixação". De acordo com esse tantra, "Esta energia é o sustentáculo da inteligência primordial que percebe o mundo dos fenômenos; é a energia que impulsiona tanto os estados iluminados quanto os estados confusos da mente. É indestrutível, no sentido de estar constantemente em marcha. É a força motriz da emoção e do pensamento no estado confuso, e da compaixão e da sabedoria no estado iluminado". [...]
A sabedoria tântrica traz o nirvana ao samsara. Isso pode parecer um pouco chocante. antes de alcançar o nível do tantra, tentamos abandonar o samsara e nos esforçamos par alcançar o nirvana. mas, no fim, temos de compreender a inutilidade de nos esforçarmos e então, nos tornamos completamente unos com o nirvana. Para captar realmente a energia do nirvana e nos tornarmos unos com ele, precisamos de uma parceria com o mundo ordinário. Por isso, a expressão "sabedoria ordinária" é muito usada na tradição tântrica.
A sabedoria tântrica traz o nirvana ao samsara. Isso pode parecer um pouco chocante. antes de alcançar o nível do tantra, tentamos abandonar o samsara e nos esforçamos par alcançar o nirvana. mas, no fim, temos de compreender a inutilidade de nos esforçarmos e então, nos tornamos completamente unos com o nirvana. Para captar realmente a energia do nirvana e nos tornarmos unos com ele, precisamos de uma parceria com o mundo ordinário. Por isso, a expressão "sabedoria ordinária" é muito usada na tradição tântrica.
(Chögyam Trungpa, Cutting Through Spiritual Materialism)
Os métodos tântricos permitem lidar diretamente com as delusões e emoções conflitantes. De fato, as delusões que devem ser abandonadas e os diversos tipos de qualidades espirituais que precisam ser cultivadas são vistas como os dois lados da mesma moeda, ao invés de serem dois tipos de experiência completamente opostos. Por isso, o sistema tântrico também pe chamado "tradição esotérica" — não por conter alguma coisa que precise ser mantido em segredo, mas sim porque a prática do tantrismo requer que o praticante tenha certos atributos. Em um certo sentido, é preciso ter alguma habilidade para praticar o tantra, senão sua prática não trará nenhum benefício. Os ensinamentos tântricos são mantidos em segredo até certo ponto — não porque o seu conteúdo não deva ser revelado, mas sim porque muitas pessoas são incapazes de compreendê-los. [...] O objetivo da prática tântrica é atravessar o abismo entre o consciente e o inconsciente, o sagrado e o profano, e todas as outras dualidades.
(Traleg Kyabgon Rinpoche, The Essence of Buddhism)
O tantra é um caminho de transformação da não-iluminação [ignorância] e das emoções como a essência búddhica e as virtudes búddhicas. Mas isto não é uma transformação de algo em outra coisa, de ferro em ouro, como alguns eruditos recentemente entenderam; é transformar, purificar ou aperfeiçoar algo que está maculado para o seu próprio estado verdadeiro. [...] [O]s sutras e tantras não diferem quanto à visão da vacuidade, a verdade absoluta, mas suas diferenças estão na visão das aparências, a verdade relativa.
(Tulku Thondup, The Practice of Dzogchen)
[Resumidamente, os tantras buddhistas diferem dos tantras hindus] tanto na ação quanto na filosofia. Em termos de ação, o tantra buddhista é baseado na motivação de bodhichitta [a mente altruísta que visa alcançar a iluminação para beneficiar a todos os seres], enquanto o tantra hindu não [tem esta motivação]. Em termos de filosofia, o tantra buddhista é baseado na teoria do anatman, ou não-eu, enquanto o tantra hindu é baseado na teoria de um eu verdadeiramente existente [atman]. Outras yogas, como exercícios de respiração e práticas com chakras [centros de energia do corpo] e nadis [canais de energia do corpo] têm muitas similaridades e diferenças sutis.
(Dalai Lama, When the Iron Bird Flies)
Sem bodhichitta, os ensinamentos sobre a visão e a meditação, por mais profundos que possam parecer, não serão de qualquer utilidade para atingir o estado búddhico perfeito. As práticas tântricas como o estágio de geração, o estágio de perfeição e assim por diante, quando praticadas dentro do contexto da bodhichitta, conduzem ao estágio búddhico completo em uma única vida. Mas sem bodhichitta eles não são diferentes dos métodos dos hereges. Os hereges também têm muitas práticas que envolvem meditação sobre divindades, recitar mantras e trabalhar com canais e energias; eles também se comportam de acordo com o princípio da causa e efeito. Mas é unicamente por não tomarem refúgio ou não fazerem surgir a bodhichitta que eles são incapazes de atingir a liberação dos reinos do samsara.
É por isto que o Geshe Kharak Gomchung disse, "De nada adianta tomar todos os votos, desde os de refúgio até os samayas tântricos, a menos que a sua mente tenha renunciado às coisas deste mundo. De nada adianta ensinar constantemente o Dharma aos outros, a menos que você possa pacificar o seu próprio orgulho. De nada adianta fazer progresso se você relega os preceitos do refúgio ao último lugar. De nada adianta praticar dia e noite a menos que você combine isto com a bodhichitta."
É por isto que o Geshe Kharak Gomchung disse, "De nada adianta tomar todos os votos, desde os de refúgio até os samayas tântricos, a menos que a sua mente tenha renunciado às coisas deste mundo. De nada adianta ensinar constantemente o Dharma aos outros, a menos que você possa pacificar o seu próprio orgulho. De nada adianta fazer progresso se você relega os preceitos do refúgio ao último lugar. De nada adianta praticar dia e noite a menos que você combine isto com a bodhichitta."
(Patrul Rinpoche, The Words of My Perfect Teacher)
As aparências exteriores dos tantras buddhistas parecem-se em um grau muito acentuado com as dos tantras hindus, mas na realidade há uma semelhança muito pequena entre eles, tanto na maneira subjetiva ou nas doutrinas filosóficas inculcadas neles ou nos princípios religiosa. Isto não é para ser admirado, já que os objetivos e objeções dos buddhistas são grandemente diferentes daqueles dos hindus. [...] O desenvolvimento no tantra feito pelos buddhistas e a extraordinária arte plástica desenvolvida por eles não deixou de criar também uma impressão na mente dos hindus, que prontamente incorporaram muitas idéias, doutrinas, práticas e deuses originalmente concebidos pelos buddhistas para a sua religião. A literatura, que segue pelo nome de tantras hindus, surgiu quase imediatamente depois que as idéias buddhistas tinham se estabelecido. [...] O tantra buddhista influenciou grandemente a literatura tântrica hindu, e por isto é incorreto dizer que o buddhismo era uma conseqüência do shivaísmo. Isto é sustentar, de outro modo, que os tantras hindus eram uma conseqüência do Vajrayana.
(Benoytosh Bhattacharyya, Introduction to Buddhist Esoterism)
[Os tantras] descrevem as várias categorias da mente ou consciência, das mais grosseiras às mais sutis. Os estados sutis da mente são mais poderosos e efetivos quando aplicados na prática espiritual. O nível mais grosseiro da consciência percebe as coisas pelos olhos, ouvidos, nariz, língua e corpo. [...] A não ser em estados extraordinários de meditação, a consciência mais sutil ou profunda manifesta-se quando estamos morrendo. Os níveis mais sutis de consciência também aparecem de maneira resumida quando começamos a dormir, terminamos um sonho, espirramos, bocejamos e durante o orgasmo.
(Dalai Lama, Como Praticar)
Muitos de nós desejamos praticar o caminho tântrico com a esperança sincera de atingir a iluminação completa o quanto antes possível. Para nos tornarmos completamente iluminados através da prática do tantra, entretanto, há algumas preliminares essenciais que precisamos praticar primeiro. Para ser verdadeiramente qualificado para praticar o tantra, precisamos cultivar os três caminhos — renúncia, bodhichitta (a mente altruísta da iluminação) e a sabedoria que realiza a vacuidade.
(Da introdução de Geshe Tsultrim Gyeltsen em Illuminating the Path to Enlightenment)
Sem o livre espírito de renúncia, [o praticante] ficará muito constringido para ser capaz de manter as disciplinas tântricas, por causa do desejo sensual e dos impulsos biológicos excessivos. Este pré-requisito de renúncia é particularmente importante nos tantras superiores, que são expressados com imagens sexuais. [...] [A segunda qualidade,] a grande compaixão da bodhichitta, é necessária para transformar a prática em uma causa de onisciência. Novamente, como muitas imagens das yogas dos tantras superiores são violentas, um praticante não saturado com grande compaixão pode ter facilmente uma idéia errônea. A terceira qualidade, um compressão correta da doutrina da vacuidade, é fundamental para a prática tântrica. Cada prática é começada, estruturada e terminada com uma meditação sobre a vacuidade. [...] Apesar de se dizer que o Vajrayana é um caminho rápido quando praticado corretamente sobre um base espiritual adequada, ele é perigoso para os espiritualmente imaturos. Este tipo de perigo é um dos motivos pelos quais o Vajrayana deve ser praticado sob a supervisão de um mestre vajra adequado.
(Dalai Lama, The Path to Enlightenment)
A importância de meditar sobre a vacuidade é universal entre as escolas do buddhismo tibetano. Na escola Nyingma, a prática do Dzogchen (particularmente as práticas de Trekchö e Tögal) incluem um processo preliminar que é descrito como encontrar a origem, a permanência e a dissolução da natureza da mente. A meditação sobre a vacuidade acontece no contexto desta busca. De modo similar, os ensinamentos Kagyü sobre o Mahamudra falam sobre a "unidirecionalidade", "transcendência de elaborações conceituais", "sabor único" e "além da meditação". Neste contexto, unidirecionalidade refere-se ao cultiva da permanência calma [sânsc. shamatha], onde a primeira parte do cultivo da transcendência de elaborações conceituais é realmente a meditação sobre a vacuidade. O ensinamento Sakya sobre o seltong sungjug refere-se à não-dualidade e à união da profundidade e claridade — profundidade refere-se aos ensinamentos sobre a vacuidade, claridade refere-se à natureza da mente. Na Gelug, precisamos cultivar a sabedoria da vacuidade em conjunção com a experiência de êxtase no contexto da prática de cultivo da sabedoria que é a união indivisível de êxtase e vacuidade. Em todas as quatro escolas, a vacuidade que é ensinada é aquela que Nagarjuna apresentou em sues Fundamentos do Caminho do Meio. A apresentação da vacuidade de Nagarjuna é comum tanto ao Paramitayana quando ao Vajrayana. No Vajrayana, entretanto, uma prática única coloca ênfase específica sobre o cultivo da experiência subjetiva da sabedoria da vacuidade; a vacuidade que é o objeto é comum tanto ao sutra quanto ao tantra.
(Dalai Lama, Illuminating the Path to Enlightenment)
A moralidade da liberação individual [sânsc. pratimoksha] é praticada principalmente ao se evitarem ações físicas e verbais que prejudiquem os outros. Esta prática é chamada de "individual" porque fornece um meio para que as pessoas possam se mover para além da rotina repetitiva de nascimento, envelhecimento, doença e morte, que os buddhistas chamam de existência cíclica ou samsara. A moralidade da consideração pelos outros [sânsc. bodhichitta] — chamada moralidade dos bodhisattvas (seres essencialmente preocupados em ajudar os outros) — é praticada principalmente ao não deixar a mente cair no egocentrismo. Para os praticantes da moralidade do bodhisattva, o ponto essencial é evitar a auto-indulgência, mas também evitar as ações nocivas do corpo e da fala. A moralidade do tantra [sânsc. samaya] está centrada em técnicas específicas do corpo e da mente para ajudar os outros. Ela fornece um meio para evitar e, assim, transcender nossa percepção limitada de nossos corpos e mentes, de modo que possamos nos perceber irradiando sabedoria e compaixão.
(Dalai Lama, Como Praticar)
A abordagem hinayana envolve manter disciplina perfeita e cessar o comportamento de um modo que causa mal a si mesmo e aos outros. Isto protege o praticante de obstáculos e distrações e permite a meditação unidirecionada. A abordagem Mahayana envolve praticar a compaixão para todos os seres assim como meditar sobre a vacuidade profunda. Estes dois são feitos simultaneamente. Sobre a base do estado altruísta da mente, ou bodhichitta, praticamos as seis perfeições — generosidade, ética, paciência, perseverança entusiástica, meditação e sabedoria. A abordagem Vajrayana é um modo de transmutação que purifica todas as atividades — emoções, ilusões impuras — e nos permite rapidamente alcançar a iluminação com as meditações dos estágios de geração e completude.
(Kalu Rinpoche, Luminous Mind)
[Segundo o Vajrayana,] no primeiro giro da roda [do Dharma], em Varanasi, ele [o Buddha] ensinou as Quatro Verdades Nobres comuns tanto ao Hinayana quanto ao Mahayana. No segundo, em Rajagriha, ou Pico do Abutre, ele expôs os ensinamentos Mahayana sobre a verdade absoluta — a verdade vazia de características e além de todas as categorias conceituais. Estes ensinamentos estão contidos no Prajnaparamita Sutra em Cem Mil Linhas. O terceiro giro da roda, [realizado] em vários tempos e lugares diferentes, foi devotado aos ensinamentos últimos do Vajrayana, ou veículo adamantino.
(Do comentário de Dilgo Khyentse Rinpoche em The Heart Treasure of the Enlightened Ones)
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Divisão do Tantra
Divisão do Tantra
As escolas "novas" do buddhismo tibetano (Sakya, Kagyü e Gelug) dividem os tantras em quatro categorias, de acordo com a classificação do Vajrapanjara Tantra. As três primeiras categorias são chamadas de "tantras inferiores" por serem práticas preparatórias para a quarta categoria, o "tantra superior":
A. Tantras de Ação (sânsc. Kryia-tantra): são os mais antigos (séculos II-VI) e foram os primeiros a seres traduzidos para o chinês (a partir do século III). Nesta classe, estão os textos que enfatizam o vegetarianismo, ritos e atividades externas de limpeza e purificação, como o Arya-manjushri-mulakalpa, o Subahu-paripriccha Sutra e o Aparimia-ayurjnana-hridaya Dharani.
B. Tantras de Atuação (sânsc. Charya-tantra, Ubhaya-tantra, Upaya-tantra, Upa-tantra): inclui apenas alguns textos, que surgiram a partir do século VI, como o Maha-vairochana-bhisambodhi Tantra. Nesta classe, as atividades externas (vegetarianismo, ritos, atividades externas de limpeza e purificação, gestos simbólicos ou mudras) e internas (meditação ou yoga) são enfatizadas igualmente, com destaque para as práticas meditativas sobre o dhyani-buddha Vairochana.
C. Tantras de União (sânsc. Yoga-tantra): enfatizam a yoga interna, isto é, as práticas meditativas. Os tantras desta categoria também enfatizam uma dieta vegetariana. Os textos desta classe estão ligados ao buddha Vairochana (Sarva-durgati-parishodhana Tantra) e ao bodhisattva Manjushri (Manjushri-nama sangiti).
D. Tantras de União Superior (sânsc. Anuttara-yoga-tantra): enfatizam a prática de yoga interna superior. Esta classe é subdividida em três categorias:
1. Tantras Superiores de União (sânsc. Yogottara-tantra), Tantras de Habilidade (sânsc. Upaya-tantra) ou Tantras Pai (sânsc. Pitri-yoga): são associados ao buddha Akshobhya e à sua consorte, Mamaki. Nesta categoria, estão o Guhyasamaja Tantra e o Yamantaka Tantra.
2. Tantras de Sabedoria (sânsc. Prajna-tantra), Tantra das Praticantes de Yoga (sânsc. Yogini-tantra), Tantras Absolutos de União (sânsc. Yoga-anuttara-tantra ou Yoganinuttara-tantra) ou Tantras Mãe (sânsc. Maitri-tantra): também estão associados ao buddha Akshobhya e sua consorte, porém em seus aspectos irados (sânsc. heruka) e acompanhados por dakinis. Os principais textos desta categoria são o (Heruka Chakra-)Samvara Tantra, o Hevajra Tantra, o Kalachakra Tantra, o Samvarodaya Tantra e o Chanda-maharoshanasa Tantra. Muitos buddhas e textos desta categoria são semelhantes as divindades e textos hindus ligadas a Shiva.
3. Tantra de União Não-dual (sânsc. Advityaya-yoga-tantra): esta é uma categoria especial em que, às vezes, é classificado o Kalachakra Tantra.
- Tantras Externos: correspondem aos três tantras inferiores que foram citados anteriormente
* Tantras de Ação (sânsc. Kryia-tantra)
* Tantras da Atuação (sânsc. Charya-tantra)
* Tantras de União (sânsc. Yoga-tantra)
- Tantras Internos: correspondem respectivamente aos três tantras superiores (Tantras Pai, Tantras Mãe e Tantra Não-dual)
* Tantras de Grande União (sânsc. Maha-yoga Tantra)
* Tantras de Suprema União (sânsc. Anu-yoga Tantra)
* Tantras da Grande Perfeição (sânsc. Ati-yoga Tantra)
domingo, 29 de novembro de 2009
Texto: Purificando a Raiva
Purificando a Raiva
S.S. o Dalai Lama diz que os ocidentais não precisam adotar a cultura tibetana para praticar o Dharma: "Você pode comer momos, tomar chá tibetano e usar roupas tibetanas, mas seu nariz ainda é do ocidente." Precisamos procurar o significado do Dharma e não confundi-lo com formas externas e armadilhas culturais. Este desafio os buddhistas ocidentais precisam encarar.
A raiva é destrutiva?
Primeiramente vamos concordar que a raiva é uma emoção destrutiva. Estou levantando este ponto porque algumas pessoas acham que a raiva é construtiva. Elas dizem: "Fulano me roubou. Eu tenho o direito de ficar com raiva. Foi bom que eu lhe dei um fora e o coloquei no seu lugar. Se não fosse por isto, ele iria montar em mim!" Assim, tentam justificar suas raivas.Se pensarmos assim, não faremos nada a respeito da nossa raiva, porque acharemos que ela é benéfica. Mas, vamos dar uma olhada mais profunda e perguntar, "Quando estou com raiva, estou feliz?" Alguém fica realmente feliz quando está aborrecido, irritado ou furioso?
Ninguém fica. Se nos sentimos infelizes quando estamos com raiva, como é que a raiva pode ser positiva? Qualidades positivas nos trazem felicidade, mas quando estamos com raiva, definitivamente estamos infelizes.
Examinando nossa própria experiência, vemos que a raiva traz muitas desvantagens. Quando estamos com raiva, fazemos e dizemos coisas que mais tarde lamentamos. A raiva nos faz perder o nosso controle, então falamos aos outros com crueldade; e podemos até mesmo ferir fisicamente aqueles a quem amamos. Cada um de nós tem um armazém oculto de eventos em nossas vidas que não gostaríamos de lembrar, porque estamos envergonhados da maneira como agimos naquelas ocasiões.
Às vezes nos indagamos porque os outros não gostam de nós. Pensamos que somos pessoas bastante boas! Mas se vermos a maneira como tratamos os outros, especialmente quando estamos com raiva, então fica claro porque eles não confiam em nós.
Lembre-se de uma situação em que tenha tido raiva. Saia por um momento de seus próprios sapatos e olhe a si mesmo do ponto de vista da outra pessoa. Veja o que disse e o que fez. Você foi uma pessoa querida naquela ocasião? Você foi gentil? Você gostaria de ser seu próprio amigo quando fica irascível?
É bom soltarmos a nossa raiva?
Muitos terapeutas encorajam seus clientes a sentir raiva de coisas que aconteceram muitos anos atrás e a soltar a sua raiva. Mais tarde, quando os terapeutas ou clientes ouvem os ensinamentos buddhistas sobre as desvantagens da raiva, eles perguntam se Buddha defendia a supressão da raiva.Não, ele não defendia. Suprimir ou reprimir a raiva não acaba com ela, apenas a oculta. Podemos ter um sorriso em nosso rosto, mas se ainda tivermos raiva em nossos corações, não teremos resolvido a raiva. Isto não é praticar a paciência, é ser hipócrita! Além disso, segurar a raiva é doloroso e pode nos prejudicar.
É importante sermos honestos conosco e reconhecermos nossa raiva, ao invés de fingir que ela não existe. No entanto, reconhecer que estamos com raiva é diferente de expressá-la verbal ou fisicamente. Quando soltamos a raiva, nos arriscamos a fazer outras pessoas infelizes. Igualmente, soltar a raiva batendo em almofadas ou gritando em lugares solitários não resolve a hostilidade e a frustração. Isto apenas dissipa temporariamente a energia-raiva. Além do mais, começamos a formar o hábito de gritar ou bater em objetos, o que não é benéfico.
Existem alternativas para os extremos de suprimir a raiva ou soltá-la. O buddhismo defende dissolvê-la, para que ela deixe de existir. Então nossos corações estarão livres de hostilidade e nossas ações não ameaçarão o bem-estar dos outros. Com as mentes claras, podemos então discutir e resolver as situações difíceis com os outros.
Treinando a paciência
O que podemos fazer quando ficamos com raiva? Buddha descreveu uma variedade de técnicas para desenvolver a paciência. Muitas delas são encontradas no Guia para o Modo de Vida do Bodhisattva, do grande sábio indiano Shantideva. O capitulo seis é um dos capítulos mais longos do livro, e ensina como evitar a raiva e cultivar a paciência.Primeiro, devemos aprender as técnicas para lidar com a raiva. Depois, praticá-las em nossas meditações. Isto ajuda a aumentar a nossa familiaridade e ter confiança nessas novas maneiras de perceber as coisas. Ao praticar estas técnicas em um ambiente pacífico — sentados em nossas almofadas de meditação - construiremos um repertório de meios alternativos de percepção de situações que normalmente nos deixam com raiva.
É importante treinarmos essas técnicas quando não estamos com raiva. É como aprender a dirigir. Não vamos direto à auto-estrada no nosso primeiro dia na auto-escola, porque estamos despreparados e sem habilidade. Ao invés disto, dirigimos ao redor do estacionamento para ficarmos familiarizados com o acelerador, os freios e o volante. Praticando inicialmente num ambiente seguro, seremos capazes de lidar com o carro em situações mais perigosas no futuro.
De maneira semelhante, primeiro praticamos a paciência quando não estamos numa situação de conflito. Fazemos isto através de lembranças de experiências anteriores — situações em que explodimos de raiva, ou eventos que até agora nos deixa hostis ou magoados só em lembrá-los. Depois, aplicamos as técnicas: repassamos um vídeo mental do evento, mas tentamos pensar nele de maneira diferente. Ao rever a situação com uma nova perspectiva, a raiva diminui. Então poderemos também antever a nós mesmos respondendo ao outro de maneira diferente.
Fazer isto não só nos ajuda a dissolver mágoas e rancores passados, mas também nos familiariza com as técnicas que podemos aplicar em situações semelhantes no futuro. Então, sempre que uma situação ocorrer em nossas vidas, e sentirmos nossa raiva surgir, podemos selecionar uma técnica e aplicá-la.
Às vezes, é difícil dissolver nossa raiva mesmo quando estamos num ambiente pacífico, porque ficamos presos nas armadilhas de nossas emoções e conceitos equivocados do passado. Mas se aos poucos aprendermos a subjugá-los, então quando formos ao trabalho, à escola ou às reuniões familiares, teremos boas chances de trabalhar a nossa raiva quando ela surgir. Com uma prática constante, seremos até capazes de evitar que a raiva sequer surja.
Subjugar a raiva é um processo lento e firme. Ao ouvir uma ou duas coisas hoje, não espere que sua raiva se vá para sempre a partir de amanhã. Reagir com raiva é um mau hábito profundamente enraizado, e como todos os maus hábitos, leva tempo para ser removido. Temos de nos esforçar para desenvolvermos a paciência.
Além disso, precisamos aprender a ser pacientes conosco mesmos. Às vezes podemos ficar com raiva de nós mesmos por ter perdido a calma com alguém. "Eu sou tão mau. Eu sou horrível. Eu estou freqüentando há um mês os ensinamentos buddhistas e ainda fico com raiva. O que há de errado comigo?" Pensando assim só compõe o problema. Não somos "culpados, maus ou sem esperança" por ter ficado com raiva. Simplesmente não estamos bem treinados na paciência. Aliás, a paciência é uma qualidade que só podemos desenvolver com prática e tempo.
Além de aumentar nossa paciência, tolerância e sabedoria — qualidades que torna nossas mentes claras — é bom aprendermos a nos comunicar claramente com os outros. Atualmente, as universidades, as empresas e os programas de educação de adultos conduzem aulas de comunicação, treinamento de positividade e resolução de conflitos. Enquanto as técnicas buddhistas ajudam a pacificar a raiva interna, estes cursos ensinam técnicas para ouvir e se expressar eficazmente.
Antídotos para a raiva
Vejamos alguns exemplos examinando meios de como lidar com a raiva. Receber críticas freqüentemente aciona a nossa raiva. Alguém aqui foi criticado hoje? Eu não ficaria surpresa se todos levantassem as mãos. Geralmente, recebemos críticas com facilidade. Nós precisamos trabalhar tanto para conseguir algumas coisas — como dinheiro — mas a crítica vem sem nem se precisar pedir!
Quando somos criticados, normalmente sentimos que somos as únicas pessoas em que os outros descarregam, não é? "Eu faço o melhor que posso, mas o patrão sempre deixa passar as falhas dos outros, e inevitavelmente nota as minhas. Tanta gente implica comigo."
No entanto, conversando com os outros, notaremos que quase todos sentem que foram muito criticados. Não acontece só conosco. Nossos problemas parecem maiores do que os dos outros porque somos muito auto-centrados.
Quando alguém nos critica, nossa reação instantânea é a raiva. O que aciona esta resposta? É a nossa concepção da situação. Embora possamos não estar conscientes disto, nós mantemos o ponto de vista: "Eu sou perfeito. Se cometo erros, eles são pequenos. Esta pessoa não compreendeu nada da situação. Ela está exagerando meu único e pequeno erro e sai gritando a altos brados para o mundo inteiro! Ela está muito errada!"
Esta é uma descrição ultra-simplificada do que está acontecendo dentro de nós, mas se estivermos conscientes, vamos perceber que sentimos assim. Mas estarão certos estes conceitos? Somos perfeitos ou quase perfeitos? Obviamente que não.
Tomemos uma situação onde cometemos um erro e alguém o nota. Agora, se aquela pessoa chegasse e nos dissesse que temos um nariz em nosso rosto, nós ficaríamos com raiva? Não. Por que não? Porque é óbvio que temos um nariz. Está lá para todo mundo ver. Alguém simplesmente o viu e comentou.
É a mesma coisa com nossos erros e defeitos. Eles estão lá, são óbvios, e o mundo os vê. Aquela pessoa só está comentando o que é evidente para ela e para os outros. Porque devemos ficar com raiva? Se não nos aborrecemos quando alguém diz que temos um nariz, porque deveríamos nos aborrecer quando alguém diz que cometemos erros?
Nós ficaríamos mais relaxados aceitando-os. "Sim, você está certo, eu cometi um erro." Ou, "Sim, eu tenho um mau hábito." Ao invés de encenar o ato de "Eu sou perfeito. Como ousa dizer isto?!", podemos simplesmente admiti-lo e nos desculpar. Ao dizer "Eu sinto muito," a situação fica completamente diluída.
É tão difícil dizer "Sinto muito," não é? Achamos que estamos perdendo algo quando nos desculpamos, que diminuímos de valor, que somos menores. Sentimo-nos ligeiramente covardes, e tememos que a outra pessoa terá poder sobre nós porque admitimos nossos erros. Estes temores nos tornam defensivos.
Tudo isto é nossa projeção errada. Sermos capazes de nos desculpar indica nossa força interna. Somos suficientemente fortes e suficientemente honestos e auto-confiantes que não precisamos fingir que não temos defeitos. Podemos admitir nossos erros. Ter defeitos não faz de nós um objeto para a cesta do lixo! Tantas situações tensas podem ser diluídas com simples palavras como "Sinto muito." Muito freqüentemente, tudo que a outra pessoa quer é que reconheçamos a sua dor e o nosso papel nela.
De maneira semelhante, quando os outros nos pedem desculpas, devemos aceitá-las. Este é um dos votos de bodhisattva. Depois que alguém nos pediu desculpas, se continuarmos a guardar rancor, estaremos nos atormentando. Se retaliarmos, o estaremos prejudicando. Qual a utilidade de qualquer coisa dessa? Que tipo de pessoa seremos se encontramos felicidade ao vingativamente impor sofrimento aos outros?
Vamos mudar ligeiramente de situação. Desta vez, somos criticados por algo que não fizemos. Ou cometemos um pequeno erro e a outra pessoa nos acusa de um erro enorme. Mesmo em tais casos, ainda não há motivo para ficar com raiva. É como alguém dizendo que temos chifres em nossas cabeças. Nós não temos chifres. A pessoa que diz isto está simplesmente exagerando a situação. O que ele está dizendo está fora do reino da realidade. Ele cometeu um erro. De maneira semelhante, quando alguém nos culpa injustamente, não há motivo para ficar com raiva ou deprimido, porque o que ele está dizendo é incorreto.
É claro que isto não significa que devemos simplesmente ficar ali passivos, enquanto o outra mente ou exagera, sem fazermos um esforço para corrigir o mal entendido. Cada situação precisa ser examinada separadamente, usando a sabedoria discriminatória. Em alguns casos, é melhor deixar de lado e nem tentar corrigir, nem mesmo depois. Mais tarde, o outro pode perceber seu erro. Mesmo se não percebê-lo, uma discussão ainda maior pode começar se tentarmos explicar o que aconteceu.
Por exemplo, se sua mãe está de mau humor e começa a implicar com você, é melhor deixar isto de lado. Perdoe-a. Se você tentar explicar, como ela já está irritada, ela pode ficar com mais raiva ainda. E estaríamos resmungando com a nossa mãe por ela estar resmungando conosco! Seria uma amolação ficar corrigindo todo mundo toda vez que ele ou ela dissesse algo impreciso. Além disso, ninguém gostaria de nos ter por perto.
Em outras situações, embora possa ser doloroso, devemos explicar ao outro os nossos atos e a evolução do mal entendido. É nossa responsabilidade fazer isto, e assim mitigar a sua raiva.
É melhor discutir o mal entendido ou discordância quando nem nós nem o outro estiver no calor da raiva. Quando estamos com raiva, não nos expressamos bem e isto piora a situação. Se alguém grita conosco, geralmente não ouvimos o que está dizendo simplesmente porque esta maneira de falar nos desagrada. De forma semelhante, se falarmos aos outros com raiva, eles também não prestarão atenção em nós. Portanto, precisamos primeiro nos acalmar praticando alguma das técnicas de pacificar a raiva.
Em segundo lugar, quando a outra pessoa está com raiva, ela não ouve o que estamos dizendo. Nós não ouvimos os outros quando estamos inflamados porque naquele momento estamos dominados pela raiva. De maneira semelhante, deixe o outro se acalmar e aproxime-se dele mais tarde quando sua mente estiver mais aberta.
Ao explicarmos nossos atos e a evolução do mal entendido à outra pessoa, será muito mais eficaz falar gentilmente do que com antagonismos. Não temos nada a perder sendo humildes e oferecendo uma explicação honesta. Aliás, para as pessoas que têm os votos de bodhisattva, é nossa obrigação aliviar os sofrimentos daqueles que estão com raiva da gente. É cruel dizer com arrogância: "A sua raiva é problema seu," e ignorar alguém com que discutimos.
Assim, recordar o exemplo do nariz e dos chifres é um antídoto contra a raiva.
Agindo ou relaxando
Uma outra técnica é também simples. Digamos que estamos numa situação horrível. Se pudermos corrigi-la, para que ficar com raiva? Podemos agir, podemos mudá-la. Por outro lado, se não pudermos alterar uma situação, para que ficar com raiva? Não há nada a ser feito, portanto estaremos melhor aceitando a situação e relaxando. Ficar agitado só aumenta o sofrimento que já está lá.Esta técnica também é boa para as pessoas que se preocupam demais. Pergunte a si mesmo, "Eu posso fazer alguma coisa com relação a esta situação?" Se a resposta for sim, então não há necessidade de se preocupar. Aja. Se a resposta for não, novamente a preocupação é inútil. Relaxe e aceite a situação.
Causa e Efeito
Uma outra técnica para neutralizar a raiva é examinar como chegamos a nos envolver na situação desagradável. Muitas vezes sentimos que somos vítimas inocentes de pessoas injustas. "Pobre de mim, sou inocente. Não fiz nada e agora esta pessoa sórdida está se aproveitando de mim!"Isto é uma mentalidade de vítima, não é? Quando ficamos com raiva, nos fazemos de vítimas. A outra pessoa não pode nos fazer de vítima. Não somos vítimas da raiva do outro. Somos vitimas de nossa própria raiva. Uma outra pessoa pode nos culpar, mas só nos tornamos vítimas quando concebemos a situação de uma certa maneira e depois ficamos com raiva daquilo que projetamos. O significado disto é muito profundo. Vejamos isto com mais profundidade.
"Pobre de mim! Eu não perturbei ninguém e agora estas pessoas estão descarregando em mim" Estará correta essa interpretação de nossa experiência? Ao invés de perder imediatamente a nossa calma e culpar o outro, vamos reconhecer que esta situação é um surgimento dependente. Ela depende tanto da outra pessoa quanto de nós.
Primeiro, vamos olhar para ver o que fizemos nesta vida para encontrar pessoas que nos tratam mal. Como entramos nesta situação? O que fizemos que aborreceu o outro para ele agir assim conosco? Precisamos ser muito honestos conosco. Talvez não sejamos tão inocentes assim. Talvez estivéssemos tentando manipular o outro e ele não caiu. Ele ficou aborrecido e agora nós bancamos o magoado e ofendido. Mas na realidade, nosso próprio comportamento fez surgir aquela situação.
Sendo introspectivos, notaremos nossos defeitos e poderemos corrigi-los. Então não vamos nos encontrar em tais situações desagradáveis no futuro.
Isto significa que nós assumimos a responsabilidade por estar naquela situação, independente do fato de a outra pessoa estar fazendo um alarde indevido, ou não. Reconhecendo nossos erros, ou motivações erradas, ficamos cientes de como o nosso comportamento afeta os outros. Evitando o comportamento destrutivo no futuro, não faremos com que o outro seja ativado para nos ferir.
Isto é só olhando ao que fizemos nesta vida para acionar o evento. Vamos agora olhar de uma perspectiva mais ampla, no curso de muitas vidas. Isto nos leva ao tópico do karma — ações intencionais. Nossas ações deixam marcas em nossa consciência. Estas marcas mais tarde amadurecem e influenciam as nossas experiências.
O que vivenciamos agora é resultado daquilo que fizemos em vidas passadas. Digamos que alguém esteja nos batendo. Isto significa que em vidas anteriores fizemos mal aos outros. Para experimentar aquele efeito agora, temos de ter feito algo anteriormente. Karma — ação e seu resultado — é como um bumerangue. O lançamos e ele volta até nós. Similarmente, se tratamos os outros de uma certa maneira, estamos colocando aquela energia no universo — e mais tarde ela retorna até nós.
Compreendendo isto nos permite aceitar a responsabilidade pela situação. Não somos vítima. Prejudicamos muitas outras pessoas no passado —— até mesmo nesta vida podemos ver que não temos agido como anjinhos. Ferimos os sentimentos dos outros, chutamos cachorros, quando éramos crianças brigamos com outras crianças no playground.
Agora estamos experimentando o resultado destes atos. Não há surpresa alguma: as marcas de nossas próprias ações negativas estão amadurecendo. Ao reconhecer isto, veremos que não há motivo para ficar com raiva da outra pessoa. Ela é apenas a condição cooperativa, enquanto nós criamos a causa principal para estarmos nesta situação.
Não interprete isto mal e masoquistamente, nem se culpe por tudo. É uma maneira extrema de pensar: "Eu sou uma pessoa horrível. Todos podem me bater e tirar vantagem de mim porque isto é tudo o que mereço." Tal ponto de vista é completamente incorreto.
Ao contrário, é melhor reconhecer, "Sim, eu feri aos outros no passado. Agora o resultado está voltando a mim. Se eu não gosto desta experiência, então tenho de ser cuidadoso ao agir com as outras pessoas para que eu não crie a causa para novamente encontrar situações dolorosas como esta."
Assim, aprenderemos com nossos erros. Não é importante lembrarmos exatamente qual foi a nossa ação numa vida passada que resultou em nossos problemas atuais. Uma sensação geral dos tipos de ações que devemos ter feito no passado para precipitar a ocorrência presente é suficiente. Depois, podemos fazer uma forte determinação para não repetir tais ações no futuro.
Quem estiver interessado em aprender mais sobre o karma e seus efeitos, deve ler o livro A Roda das Armas Afiadas de Dharmarakshita. Este pequeno livro explica os elos entre nossas experiências atuais e nossos atos passados. Ele também nos encoraja a abandonar a atitude egoísta que nos leva a agir negativamente.
Treinando-nos a pensar assim, podemos transformar más situações no caminho da iluminação. Como? Pensando nessas situações de maneira construtiva; aprendemos com nossos erros ao invés de cair na armadilha da mentalidade de vitima.
A bondade do inimigo
Quanto mais treinarmos assim, mais perceberemos que as pessoas que nos fazem mal são de fato muito boas. Primeiro, ao nos causar danos, elas permitem que nosso karma negativo amadureça. Agora aquele karma específico acabou! Em segundo lugar, ao nos fazer mal, elas nos forçam a examinar nossas ações e a tomar decisões firmes quanto a como queremos agir no futuro. Assim, aquele que nos prejudica está nos ajudando a crescer. Ele é mais bondoso do que nossos amigos!De fato, os inimigos são mais bondosos conosco do que o Buddha. Isto é quase inconcebível. "O que quer dizer meu inimigo é mais bondoso comigo do que o Buddha? O Buddha tem compaixão perfeita por todos. O Buddha não prejudica uma mosca! Como pode o meu inimigo que é um grande blá blá blá ser mais bondoso do que o Buddha?"
Veja isto da seguinte forma: para sermos buddhas, precisamos praticar a paciência. Esta é uma das atitudes de grande alcance (paramita) e é uma prática muito importante para os bodhisattvas. Não há como tornarmo-nos buddhas se não conseguirmos ser pacientes e tolerantes.
Com quem praticamos a paciência? Não com os buddhas, porque eles não nos deixam com raiva. Não com os nossos amigos, porque eles são bons para nós. Quem nos dá a oportunidade de praticar a paciência? Quem é tão bondoso e nos ajuda a desenvolver aquela qualidade infinitamente boa da paciência? Somente aquele que nos faz mal. Somente nosso inimigo. Portanto, o inimigo é muito mais bondoso conosco do que o Buddha.
Meu mestre deixou isto bem claro para mim. Certa vez, eu era vice-diretora de uma empresa. O diretor e eu não nos dávamos bem. É por isso que eu conheço bem o Capítulo Seis do Guia para o Modo de Vida do Bodhisattva. Num dia, eu fiquei com muita raiva desta pessoa, e de noite eu voltei ao meu quarto e pensei, "Eu estourei novamente! O que Shantideva sugere que eu pense nesta situação?"
Finalmente, eu larguei aquele emprego. Fui ao Nepal e encontrei meu mestre, Zopa Rinpoche. Estávamos sentados na varanda da casa de Rinpoche, olhando os Himalayas, tão pacíficos e calmos. Então Rinpoche me perguntou, "Quem é mais bondoso para você, Sam ou o Buddha?"
Eu pensei, "Ele deve estar brincando! Não há como comparar. Obviamente o Buddha é muito bom. Mas Sam é um outro caso." Então eu respondi, "O Buddha, é claro."
Rinpoche olhou para mim como que dizendo, "Você ainda não entendeu!" e disse, "Sam lhe deu a oportunidade de praticar a paciência. O Buddha, não. Você não pode praticar a paciência com o Buddha. Portanto, Sam é mais bondoso com você do que o Buddha."
Eu fiquei sentada lá emudecida, tentando digerir o que Rinpoche disse. Lentamente, quanto os anos se passaram, a coisa entrou. É interessante ver a si mesmo mudar quando você se permite pensar assim.
Portanto, esta é outra maneira de pensar quando estamos com raiva: focalize na bondade do inimigo, e pense na oportunidade de praticar a paciência. Tome as más situações como um desafio para ajudá-lo a crescer.
Dando a dor
Outra técnica é dar o dano e a dor ao nosso pensamento egoísta, que é o nosso verdadeiro inimigo. À medida em que nos tornamos mais conscientes de nossos pensamentos e ações, como eles influenciam os outros e a nós mesmos, notamos que nossa atitude egoísta causa muitos problemas. Impulsionados pelo egoísmo, falamos e fazemos coisas que ferem os outros, coisas do que mais tarde nos envergonhamos. Quase todos os conflitos que temos com os outros envolve o nosso egoísmo: queremos as coisas do nosso jeito, a outra pessoa quer do seu jeito. Estamos convencidos de que nossa idéia é a certa, e a outra pessoa está convencida de que está certa. Além disto, a atitude egoísta é um dos maiores empecilhos para as realizações espirituais porque nos torna preguiçosos em nossa prática do Dharma.
Assim, o verdadeiro inimigo que obstrui a nossa felicidade e bem-estar é a atitude de auto-estima egoísta. Precisamos estar firmemente convencidos disto. Quando alguém nos critica, ou nos trai, ou nos dá uma surra, ficamos feridos e com raiva. Sentimos, "Como esta pessoa ousa me tratar assim!" Esta atitude vê o caso só de nossa própria perspectiva. Estou preocupado comigo, com os meus sentimentos, o que está acontecendo comigo. No entanto, esta atitude egoísta não é inerentemente nós. É como um ladrão dentro de uma casa. Podemos expulsá-lo quando reconhecermos que é perigoso.
Estando convencidos das desvantagens da atitude egoísta, podemos então tomar qualquer dor que experimentamos e dá-la à atitude egoísta. Ao invés de sentir, "Isto é horrível. Eu não gosto de ouvir o que esta pessoa está dizendo," podemos pensar, "Que bom! Toda esta a dor e sentimento de desconforto eu darei à minha atitude egoísta. Este é o verdadeiro inimigo, portanto que ela leve a culpa." Depois podemos sutilmente dar risada, "Ha, ha, atitude egoísta. Ao invés de deixar que me faça infeliz, eu lhe darei esta dor e preocupação!"
Se praticarmos isto com sinceridade, então quando alguém nos criticar ou prejudicar, estaremos felizes. Isto não é porque somos masoquistas, mas porque damos o dano ao verdadeiro inimigo, que é nosso próprio egoísmo. Não precisamos nos aborrecer mais. Além disto, nosso inimigo, a atitude egoísta, está sofrendo, portanto devemos nos alegrar.
Então, quanto mais alguém nos prejudica, mais felizes estaremos. Aliás, pensaremos, "Venha, me critique um pouco mais. Eu quero que minha atitude de auto-estima egoísta seja prejudicada." Esta é uma técnica profunda de treinamento do pensamento. A primeira vez que eu a ouvi, pensei, "Isto é impossível! O que é isso de que eu devo ficar feliz quando alguém me critica? Como é que poderei praticar isto?"
Gostaria de compartilhar com vocês uma estória de experiência pessoal, quando eu praticava assim em certa ocasião. Foi memorável! Eu estava no Tibet, numa peregrinação com outras cinco pessoas até Lhamo Lhatso, o famoso lago a 18.000 pés. Como o lago é muito remoto, fomos até lá a cavalo. Havia algo de errado com o cavalo de uma das pessoas, então tivemos de andar e guiar o cavalo pelas rédeas. Henry estava com fome e cansado da longa viagem e devido à elevada altitude. Além disso, ele tinha de andar a pé ao invés de a cavalo. Como eu estava me sentindo bem, ofereci-lhe o meu cavalo.
Bem, Henry estourou. E, como no caso quando as pessoas ficam com raiva, se lembram de tudo que você já fez de errado nos últimos dez anos. Ele me disse todos os meus defeitos de anos atrás, todos os problemas que eu causei a outras pessoas e dos boatos que ele havia ouvido, todos os meus erros!
Cá estávamos neste local idílico no Tibet, numa peregrinação a um local sagrado, e ele lá falando e falando, "Você fez isto e você fez aquilo. Então muitas pessoas reclamam de você".
Geralmente, eu sou muito sensível à critica e facilmente me magôo. Então, eu decidi, "Darei toda esta dor à minha atitude de auto-estima egoísta." Eu meditei assim enquanto andávamos, e muito para minha surpresa, comecei a pensar, "Isto é bom! Eu realmente acolho a sua crítica. Aprenderei com ela. Obrigado por me ajudar a consumir o meu karma negativo dizendo-me os meus defeitos. Toda dor vai para a minha atitude egoísta porque este é o meu verdadeiro inimigo."
Foi surpreendente! Enquanto continuávamos pelas trilhas das montanhas, eu senti, "Diga mais. Isto é realmente bom!" Finalmente, paramos para acampar à noite e fizemos chá. Minha mente estava completamente em paz. Acho que isto foi uma benção da peregrinação. Isto me provou que é possível ser feliz quando coisas indesejáveis acontecem. Eu não precisei cair em meu velho hábito de "Pobre de mim! Os outros não gostam de mim."
É da natureza da pessoa ser desagradável?
Há ainda mais uma técnica para evitar a raiva quando alguém nos prejudica. Perguntamos a nós mesmos, "A natureza desta pessoa é a de nos prejudicar?" Se a natureza da pessoa é prejudicial e odiosa, então é inútil ficar com raiva. Seria como ficar com raiva do fogo porque sua natureza é de queimar. É assim que o fogo é; é assim que esta pessoa é. Não tem sentido se aborrecer com isto.
De forma semelhante, se a natureza da pessoa não é prejudicial, então não adianta ficar com raiva. Seu comportamento sem consideração foi uma casualidade; não é a sua natureza verdadeira. Quando chove, não ficamos com raiva do céu, porque as nuvens não são da natureza do céu.
De um lado, podemos dizer que a natureza dos outros é a de criticar, achar defeitos e culpar. Eles são seres sencientes presos na prisão da existência cíclica, então naturalmente suas mentes estão obscurecidas pela ignorância, raiva e apego. Nossas mentes também estão. Se a situação for esta, então porque esperar que nós ou os outros estejamos livres de conceitos equivocados e emoções negativas? Não há motivo para ficar com raiva deles por causarem danos, assim como não há motivo para ficar com raiva do fogo porque ele queima. É exatamente assim que eles são.
Por outro lado, a natureza mais profunda da pessoa que lhe faz mal não é ser prejudicial. Ela tem o puro potencial de Buddha, sua bondade intrínseca. Esta é a sua verdadeira natureza. Seu comportamento odioso é como uma nuvem de trovoada que obscurece temporariamente o céu claro. Aquele comportamento não é ele, então para que ficarmos infelizes sendo impacientes? Pensando assim ajuda muito.
Precisamos aplicar estas técnicas às situações reais. Em nossa meditação diária, podemos puxar as experiências dolorosas de nossa memória e olhá-las sob esta luz. Todos nós temos um reservatório de memórias dolorosas ou rancores que ainda guardamos contra os outros. Ao invés de suprimi-los, é bom puxá-los para fora e interpretar aquelas situações usando alguns dos métodos acima. Assim, deixaremos de ter sentimentos dolorosos e ressentimentos.
Se não fizermos isto, poderemos ter rancores por 20 ou 30 anos. Nunca esquecemos o mal que recebemos e nos tornamos infelizes quando guardamos cuidadosamente estas memórias. Por exemplo, durante o primeiro retiro de purificação que eu fiz na Índia, eu percebi que ainda estava com raiva de minha professora do segundo ano primário porque ela não me deixou participar do teatrinho da classe. Isto tinha acontecido há mais de 20 anos e eu ainda não a havia perdoado!
As famílias são muito boas em guardar rancores. Eu conheço uma família grande que possui duas casas num mesmo terreno. As casas foram compradas juntas como casas de campo. Certa vez, as pessoas de uma casa brigaram com seus irmãos e primos na outra casa, e desde então deixaram de se falar. Há mais de quarenta anos, decidiram que se odeiam e não se falam pelo resto da vida. As famílias ainda vão até lá nos feriados, mas não se falam. É meio ridículo, não é?
Vejamos os rancores que ainda guardamos durante anos: um pequeno incidente acontece — alguém não veio a um casamento ou funeral, ou alguém riu de nós, ou alguém nos embaraçou na frente dos outros — e juramos nunca mais falar ou ser gentil com aquela pessoa enquanto vivermos. Guardamos este tipo de voto tão perfeitamente, e no entanto achamos difícil guardar os votos de não mentir ou roubar.
Durante anos ficamos com raiva de outra pessoa. Mas quem sai perdendo? Quem fica infeliz? Quando guardamos um rancor, a outra pessoa não fica infeliz. Ela geralmente já esqueceu o incidente. Mesmo numa situação mais séria, por exemplo um divórcio, o outro pode ter se desculpado pelo que fez. Mas em ambos os casos, nos apegamos ao mal como estivesse gravado na pedra. Certa vez alguém nos xingou, mas repassamos esta memória em nossas mentes dia após dia, e revivemos o mal vez após vez. Isto é uma excelente forma de auto-tortura.
Guardar rancor não serve a nenhum propósito produtivo. Como um câncer mental, os rancores nos consomem. Enquanto guardarmos ressentimentos, nunca poderemos perdoar aos outros. Mas a nossa falta de perdão não fere o outro, mas sim a nós mesmos.
Porque é tão difícil perdoar os erros dos outros? Nós também cometemos erros. Vendo o nosso próprio comportamento, notamos que algumas vezes fomos vencidos pelas emoções negativas e agimos de modo que mais tarde nos arrependemos. Queremos que os outros compreendam e perdoem os nossos erros. Porque então não podemos perdoar aos outros?
Podemos, é claro, perdoar alguém sem sermos ingênuos. Podemos perdoar um alcoólatra por estar bêbado, mas isto não significa que esperamos que ele deixe de beber imediatamente. Podemos perdoar uma pessoa por nos ter mentido, mas no futuro, pode ser prudente ter cuidado e verificar suas palavras. Pode-se perdoar um cônjuge por ter tido uma relação extraconjugal, mas não se deve ignorar os problemas conjugais que levaram o outro a buscar companhia em outro lugar.
Para ter um coração livre e aberto, precisamos fazer uma faxina interna; precisamos tirar todos aqueles rancores, ver a dor, mas sem repassar o mesmo vídeo de auto-piedade em nossas mentes. Podemos ver estas situações de uma perspectiva nova, empregando as diversas técnicas para dissolver a raiva que foram descritas acima.
Assim, soltaremos a hostilidade que estivemos carregando em nossos corações durante anos. Além disso, ganharemos familiaridade com as técnicas de forma que poderemos rapidamente recordá-las quando incidentes semelhantes acontecerem em nossas vidas diárias.
A outra pessoa está feliz?
Mais uma técnica para a raiva é perguntarmo-nos, "A pessoa que está fazendo mal a mim está feliz?" Alguém está gritando comigo, reclamando de tudo que eu faço. Ele está feliz, ou está se sentindo miserável? Obviamente, ele está se sentindo infeliz. É por isso que está agindo assim. Se estivesse feliz, não estaria discutindo.
Todos nós sabemos o que é ser infeliz. É exatamente assim que esta pessoa está se sentindo agora. Vamos nos colocar em seu lugar. Quando estamos infelizes e "colocando tudo para fora," como gostaríamos que os outros reagissem? Geralmente, queremos que nos compreendam, que nos ajudem.
É assim que esta pessoa está-se sentindo. Então, como poderemos ter raiva dela? Ela deveria ser objeto de nossa compaixão, não de nossa raiva. Se pensarmos assim, veremos o nosso coração cheio de paciência e bondade-amorosa pelo outro, não importa como ele age conosco.
Nossas atitudes mudam, porque ao invés de ver a situação de nosso próprio ponto de vista auto-centrado — o que alguém está fazendo comigo — se nos colocarmos no lugar da outra pessoa, vamos experimentar a sua dor, sentir a sua vontade de ser feliz. Vendo que em essência o outro é exatamente como nós somos, é fácil pensar, "Como eu posso ajudá-lo?" Tal atitude não só evita que fiquemos aborrecidos, mas também nos inspira a aliviar o sofrimento do outro.
Várias técnicas foram aqui discutidas para ajudar a dissolver a nossa raiva. Vamos revê-las:
- Lembre o exemplo de alguém dizendo que temos um nariz ou que temos chifres. Podemos reconhecer nossos erros e defeitos, assim como reconhecemos que temos um nariz no rosto. Não há necessidade de ficar com raiva. Por outro lado, se alguém nos culpa por algo que não fizemos, é como se tivesse dito que temos chifres em nossa cabeça. Não há motivo para ficar com raiva de algo que não é verdadeiro.
- Pergunte a si mesmo, "Eu posso fazer algo sobre isto?" Se puder, então a raiva não tem sentido porque você pode melhorar a situação. Se não puder
mudar a situação, a raiva é inútil porque nada pode ser feito.
- Examine como se envolveu na situação. Isto tem duas partes:
a) Que ações você cometeu recentemente para instigar o desacordo? Examinar isto ajuda a compreender porque a outra pessoa está aborrecida.
b) Reconheça que situações desagradáveis são devidas ao fato de termos causado mal aos outros anteriormente nesta vida ou em vidas prévias. Vendo nossas próprias ações destrutivas como causa principal, podemos aprender com os erros passados e decidir agir melhor no futuro.
- Lembre-se da bondade do inimigo. Primeiro, ele aponta nossos erros de forma que podemos corrigi-los e melhorar nosso caráter. Em segundo lugar, ele nos dá a oportunidade para praticar a paciência, uma qualidade necessária ao nosso desenvolvimento espiritual. Nessas maneiras, o inimigo é mais bondoso conosco do que nossos amigos ou até mesmo o Buddha.
- Dê a dor à sua atitude egoísta reconhecendo que o egoísmo é como que a fonte de todos os nossos problemas.
- Pergunte a si mesmo, "A natureza desta pessoa é agir assim?" Se for, então não há razão para ter raiva, porque seria como ficar aborrecido com o fogo por estar queimando. Se não for a natureza da pessoa, novamente a raiva é irrealista, porque seria como ficar com raiva do céu por estar com nuvens.
- Examine as desvantagens da raiva e de guardar rancor. Isto dá uma tremenda energia para soltar estas emoções destrutivas.
- Reconheça que a infelicidade e confusão da outra pessoa está fazendo com que ele ou ela nos façam mal. Como sabemos o que é ser infeliz, podemos ter simpatia com esta pessoa. Assim, esta pessoa se torna objeto de nossa compaixão, não objeto de nossa raiva.
Perguntas e respostas
Ser paciente com as pessoas que nos prejudicam significa ser passivo? Precisamos deixar que prevaleçam suas opiniões ou deixar que nos pisem?Não. Podemos corrigir uma má situação sem antagonismos. Aliás, seremos mais efetivos agindo assim, quando estivermos calmos e com o pensamento claro.
Às vezes precisaremos ter de falar com alguém com firmeza porque esta é a única maneira de nos comunicar com esta pessoa. Por exemplo, se sua filha está brincando na rua e você diz muito docemente, "Susie querida, por favor não brinque na rua," ela pode ignorá-lo. Mas se falar com firmeza e explicar-lhe o perigo, ela se lembrará e obedecerá.
Como um entusiasta do esporte, não será boa a raiva porque nos ajuda a ganhar o jogo? O esporte é uma boa maneira de soltar a raiva?
Sim, o esporte é uma maneira socialmente aceitável para soltar a raiva. No entanto, não cura a raiva, só libera temporariamente a energia física que acompanha a raiva. Mas, ainda estaremos evitando o verdadeiro problema, isto é, nossas emoções perturbadoras e conceitos equivocados com relação a uma situação.
Sim, a raiva pode ajudá-lo a ganhar o jogo, mas será isto realmente benéfico? Vale a pena reforçar esta característica negativa só para receber um troféu? O perigo no esporte é tornar o "nós e eles" muito concreto. "O meu time deve vencer. Temos de lutar e derrotar o inimigo."
Mas, vamos recuar um momento. Porque deveríamos ganhar e o outro time perder? A única razão é a seguinte, "Meu time é melhor porque é meu." O outro time sente a mesma coisa. Quem está certo? A competição baseada em tal auto-centrismo não é produtiva porque gera raiva e ciúme.
Por outro lado, podemos nos concentrar no processo de jogar o jogo, e não no alvo de vencer. Neste caso, apreciaremos o exercício físico, a camaradagem e o espírito de equipe, seja vencendo ou perdendo. Psicologicamente, esta atitude traz mais felicidade.
Como devemos lidar com a raiva ao testemunhar uma pessoa prejudicando a outra?
Todas as técnicas descritas acima se aplicam aqui. No entanto, ser paciente não significa ser passivo. Podemos ter de agir para impedir que uma pessoa faça mal à outra, mas a chave é fazer isto com compaixão imparcial por todos na situação.
É fácil ter compaixão pela vítima. Mas a compaixão pelo criminoso é igualmente importante. Esta pessoa está criando a causa para o seu próprio sofrimento: mais tarde ele pode ser torturado pela culpa, ele pode ter problemas com a lei, e ele colherá os frutos kármicos de suas próprias ações. Reconhecendo os sofrimentos que ele está trazendo para si mesmo, poderemos desenvolver a compaixão por ele. Assim, com preocupação igual pela vítima e pelo criminoso, podemos agir para evitar que uma pessoa faça mal a outra.
Não precisamos estar com raiva para corrigir um erro. As ações movidas pela raiva podem complicar ainda mais a situação! Com uma mente clara, somos capazes de determinar mais facilmente o que podemos fazer para ajudar.
Como posso ajudar alguém que esteja criando karma negativo tendo raiva de mim?
Cada situação é diferente e deve ser examinada separadamente. No entanto, algumas linhas gerais podem ser aplicadas. Primeiro, devemos verificar se a queixa do outro a nosso respeito se justifica. Se sim, podemos nos desculpar e corrigir a situação. Isto cessa a raiva do outro.
Em segundo lugar, quando alguém está muito aborrecido ou com raiva, tente acalmá-lo. Não argumente, porque no seu atual estado mental, ele não pode ouvi-lo. Isto é compreensível: nós não ouvimos os outros quando estamos temperamentais. Portanto, é melhor ajudá-lo a se acalmar e mais tarde, talvez no dia seguinte, conversar.
O que devemos fazer quando as pessoas criticam o buddhismo?
Isto é opinião deles. Eles têm o direito de tê-la. É claro que não concordamos com eles. Às vezes podemos conseguir corrigir o conceito equivocado do outro, mas às vezes as pessoas têm a mente muito estreita e não querem mudar suas opiniões. Isto é assunto deles. Simplesmente esqueça.
Não precisamos da aprovação dos outros para praticar o Dharma. Mas precisamos estar convencidos em nossos corações de que o que fazemos é certo. Se estivermos convencidos, então as opiniões dos outros não são importantes.
A critica dos outros não prejudica o Dharma ou o Buddha. O caminho da iluminação existe, quer os outros o reconheçam ou não. Nós não precisamos ficar defensivos. Aliás, se ficarmos agitados quando os outros criticam o buddhismo, isto indica que estamos apegados às nossas crenças, que nosso ego está envolvido e portanto sentimos compelidos a provar que nossas crenças estão certas.
Quando estamos seguros daquilo que acreditamos, as críticas dos outros não perturbam a nossa paz. Porque deveriam? Críticas não significam que nossas crenças estejam erradas, nem significa que nós somos estúpidos ou maus. É simplesmente a opinião de uma outra pessoa, só isso.
O buddhismo tibetano tem muitas imagens de divindades iradas. O que isto significa?
Estas divindades ou figuras de buddhas são manifestações da sabedoria e compaixão do Buddha. Sua ferocidade não é dirigida aos seres viventes, porque como buddhas, eles só têm compaixão pelos outros. Ao contrário, sua força é dirigida à ignorância e ao egoísmo, que são as verdadeiras causas de todos os nossos problemas.
Ao mostrar um aspecto feroz, essas divindades demonstram a necessidade de agir rapidamente e com firmeza contra a nossa ignorância e nosso egoísmo. Não é nada benéfico ser pacientes com os nossos inimigos internos, que são as atitudes perturbadoras. Devemos nos opor ativamente contra isto. Essas divindades ilustram que, ao invés de ficarmos irados com os outros seres, devemos ser ferozes com os inimigos internos, como a ignorância e o egoísmo.
Além disso, como manifestações da sabedoria compassiva, estas divindades representam simbolicamente a sabedoria compassiva conquistando as atitudes perturbadoras.
Como identificar a nossa raiva?
Existem diversas maneiras de fazer isto. Quando fazemos a meditação com a respiração — claramente focalizando o ar ao inalar e exalar, observe que distrações surgem. Podemos reconhecer uma sensação geral de agitação ou raiva. Ou podemos lembrar de uma situação de anos atrás que ainda nos irrita. Ao notar estas distrações, saberemos o que precisamos trabalhar.
Podemos também identificar nossa raiva ficando cientes de nossas reações físicas, estejamos meditando ou não. Por exemplo, se sentirmos nosso estômago apertando, ou a temperatura de nosso corpo aumentando, pode ser um sinal de que estamos começando a perder a nossa calma. Cada pessoa tem manifestações físicas diferentes da raiva. Podemos ser observadores e notar as nossas. Isto é útil, porque às vezes é mais fácil identificar as sensações físicas que acompanham a raiva do que a própria raiva.
Uma outra maneira é observar nossos humores. Quando estamos de mau humor, podemos dar uma pausa e nos perguntar, "O que é esta sensação? O que a instigou?" Às vezes podemos observar padrões em nossos humores e comportamentos. Isto nos dá uma pista de como nossa mente opera.
O que podemos fazer com a raiva que vem se acumulando há muito tempo?
Levará um tempo para libertar nossa mente disto. A raiva habitual deve ser substituída pela paciência habitual, e isto leva tempo e esforço consistente para ser desenvolvido. Quando notamos que nossa raiva está crescendo com relação a alguém, é bom perguntarmo-nos, "Que botão esta pessoa está apertando em mim? Porque fico tão irritado com seus atos" Assim, pesquisamos nossas reações para determinar a verdadeira questão do assunto. Nos sentimos impotentes? Nos sentimos que ninguém nos ouve? Estamos ofendidos? Observando nesse sentido, vamos nos conhecer melhor e podemos então aplicar o antídoto correto àquela atitude perturbadora. É claro que prevenir é o melhor remédio. Ao invés de deixar a sua raiva crescer durante um longo tempo, é melhor ser corajoso e tentar se comunicar com a outra pessoa mais cedo. Isto acaba com a proliferação de conceitos equivocados e mal entendidos. Se deixarmos nossa raiva crescer durante um tempo, como poderemos pôr a culpa na outra pessoa? Nós temos alguma responsabilidade de tentar nos comunicar com a pessoa que nos perturba.
Dedicação
Vamos agora dedicar o potencial positivo que acumulamos para que todos os seres tenham mentes pacificas, livres de hostilidade. Ao praticar a paciência, possamos dissipar a nossa própria raiva, e assim, possamos ser capazes de ensinar aos outros e inspirá-los a se transformarem em buddhas pacíficos.(Adaptado de um texto traduzido e divulgado pelo Centro Shiwa Lha.)
Fonte: http://www.dharmanet.com.br/vajrayana/raiva.htm
sábado, 28 de novembro de 2009
Frase - B.K.S. Iyengar
"O Yoga é como a música: o ritmo do corpo, a melodia da mente e a harmonia da alma criam a sinfonia da vida."
B.K.S. Iyengar
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Mandala
Em sânscrito, a palavra a palavra mandala (tib. kyilkhor / dkil 'khor, jap. mandara) significa círculo. No buddhismo Vajrayana, mandala refere-se a um tipo de diagrama (sânsc. yantra) simbólico de uma mansão sagrada, o palácio de uma divindade meditacional, a dimensão pura da mente iluminada. Geralmente, as mandalas são pintadas como thangkas, representadas tridimensionalmente em madeira ou metal ou construídas com areia colorida sobre uma plataforma. Neste último caso, a mandala é desfeita após algumas cerimônias e a areia é jogada em um rio próximo, para que as bênçãos se espalhem. A dissolução de uma mandala serve também como exemplo da impermanência.
As mandalas são muitas vezes constituídas por uma série de círculos concêntricos, cercados por um quadrado que, por sua vez, é cercado por outro círculo. O quadrado possui um portão no centro de cada lado, o principal voltado para o leste, com outras três entradas em cada ponto cardeal. Eles representam entradas para o palácio da divindade principal e são baseados no desenho do templo indiano clássico de quatro lados. Tais mandalas são plantas elaboradas do palácio, visto de cima. Os portais, porém, muitas vezes são "deitados", assim como os muros externos. Estes portais são elaboradamente decorados com símbolos tântricos. A arquitetura da mandala representa tanto a natureza da realidade como a ordem de uma mente iluminada. [...]
A divindade central representa o estado da iluminação [...] e as várias partes do palácio indicam os aspectos chave da personalidade iluminada. As divindades iradas representam as próprias emoções negativas — como a raiva, o ódio, o desejo e a ignorância — transmutadas na consciência iluminada de um buddha.
(John Powers, Introduction to Tibetan Buddhism)Na suprema experiência da mandala, as cores e formas são simples metáfora. Naturalmente, se percebermos uma paixão muito forte e intensa, podemos reproduzi-la em uma pintura com toda a variedade de chamas e ornamentos. É muito interessante que os praticantes do tantra na Índia tenham criado uma estrutura iconográfica com as divindades vestidas com trajes reais indianos, coroas e jóias, enquanto na China [e, conseqüentemente, na Coréia e no Japão,] os praticantes do tantra tenham representado as divindades vestindo as vestes imperiais chinesas, longas túnicas com brocados e grandes mangas, usando grandes bigodes, segurando cetros chineses. [...] Se estivermos aptos a ver as energias do universo como realmente são, então as formas, cores e padrões se sugerem; Esse é o significado do Mahamudra, que significa "grande símbolo". Todo o mundo é um símbolo, não no sentido de um sinal representando outra coisa, mas no sentido de culminância das vívidas qualidades das coisas como elas são.
(Chögyam Trungpa, The Mith of Freedom and the Way of Meditation)
[A] mandala representa a auto-identificação do microcosmo (a pessoa humana) com o macrocosmo que, para uma pessoa não-iluminada, possui a natureza do samsara; reciprocamente, ela se revela como a expressão perfeita da iluminação quando todas as diferenciações errôneas desaparecem no estado iluminado da não-dualidade.
(David Snellgrove, Indo-Tibetan Buddhism)
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